As ações estão baratas, é hora de comprar dizem especialistas

A queda de quase 10% em apenas dois dias da Bolsa de Valores de São Paulo, a B3, pode ser motivo para muita gente se assustar e sair correndo do mercado de ações. Especialmente para os investidores que, desanimados com o baixo rendimento das aplicações em juros e atraídos pelo otimismo que cercava esse segmento na virada do ano, debandaram para a renda variável e fizeram sua estreia na bolsa.

É natural que exista o receio de ver o dinheiro derreter em tão pouco tempo e diante de um panorama de muitas novidades e incertezas trazidas pelo coronavírus. Mas há uma regra de ouro para não perder dinheiro com ações, a de aplicar com perspectivas de longo prazo. No curto prazo, esse mercado fica mesmo à mercê das oscilações.

Sair na queda é sacramentar o prejuízo que, por enquanto, é apenas contábil. Na medida em que o mercado se recupera, as ações voltam a se valorizar e recompõem o patrimônio aplicado. É preciso ter sangue-frio.

Ao mesmo tempo, investidores mais acostumados com a dinâmica das bolsas de valores consideram o momento de quedas uma oportunidade para novas compras. “Nesse mês estamos tendo um ótimo nível de captação”, afirma Gustavo Aranha, sócio e diretor de Distribuição da Geo Capital, que administra fundos formados por ações estrangeiras. “O movimento mostra um amadurecimento do aplicador, interessado e à procura das ações que ficaram baratas”.

Gustavo explica que a Geo criou o “baratômetro”. Um conceito que fornece um número teórico para cada ação, e quanto maior for esse número mais barata estará a ação em função dos resultados que pode proporcionar no longo prazo. Maior também a possibilidade de ganhos diferenciados. “Os clientes não olham quanto o papel caiu, se desvalorizou, mas sim se esse número da ação está subindo”.

Uma ferramenta de educação financeira elaborada com base em análises minuciosas da ação, da empresa, do setor, em que são identificadas as companhias de qualidade, no mundo todo, que vão continuar de pé, faça chuva, faça sol, depois do coronavírus. “Com a queda do mercado, os investidores em vez de entrar em pânico passam a enxergar oportunidades” diz Aranha.

Outro especialista do mercado que considera que os papeis estão baratos e atraentes é Adriano Cantreva, sócio-diretor da Portofino Investimentos, uma gestora de recursos de famílias. “Desde o fim do ano passado, o mercado de ações no Brasil caiu 20% em dólar, portanto a compra é mais indicada agora, porque os fundamentos são os mesmos, são bons”. Ele ressalta que as medidas tomadas aqui no ano passado com a reforma da Previdência Social e as privatizações, vão gerar bons resultados, mas ainda não se refletiram na economia.

Mas e se o mercado continuar caindo? Ambos acreditam que isso possa mesmo acontecer, mas por um período relativamente curto. E, igualmente, citam episódios semelhantes à epidemia do coronavírus, como os do Ebola ou Sars, em que houve um tempo para entendimento e assimilação do processo, para depois o mercado se ajustar e reagir. Portanto, essa perspectiva de novas quedas não deve ser motivo para saída da posição em ações nem uma contraindicação para assumir novas posições, se a visão for de longo prazo.

Cantreva enfatiza que é importante entender em que momento estamos nesse processo da epidemia, e avalia que o pior impacto trazido pelo coronavírus foi na China, pega totalmente de surpresa, despreparada e com poucas informações sobre a doença. Hoje, segundo ele, já se sabe bem mais sobre como age e se propaga o vírus. Além disso, embora se alastre rapidamente, outros países estão adotando medidas preventivas, há um esforço para a descoberta de uma vacina em tempo recorde que reduza o avanço e os estragos desse novo vírus.

Para Aranha, “em um primeiro momento houve uma reação exagerada do mercado em nível global, diante das incertezas. Não deveria cair tanto, mas sem muita informação, no curto prazo, a reação é amplificada, o impacto é maior”. Ele admite que tudo indica um crescimento menor na economia mundial em consequência do coronavírus e isso pode vir afetar o desempenho das empresas, mas adverte que “as companhias que são de qualidade podem até sofrer, mas não vão deixar de ser de qualidade”, pondera.

Entre as ações estrangeiras mais afetadas, Gustavo aponta as do setor de viagem, incluindo as de hotéis (Marriot) e companhias aéreas, porque as pessoas tendem a se deslocar menos em função da epidemia, e as do setor de luxo (Luxxotica), tanto por ter os chineses como um público altamente consumidor, como pela concentração da produção desses produtos na China.

A situação requer um cuidado maior na avaliação dos papeis, admite o executivo da Geo. É fundamental identificar se a queda das ações é momentânea em decorrência do susto com o coronavírus, ou até que ponto está refletindo uma fraqueza estrutural da empresa. Dependendo do caso, a posição dessas ações na carteira dos fundos será revista.

Adriano destaca mais dois pontos que sugerem uma reação do mercado no curto prazo. O primeiro é que a queda dos mercados pode ser explicada em boa parte pelo fluxo de capitais. Os investidores assumem posições em mercados de derivativos, e o recuo no preço dos papeis os leva a vender mais papeis para a cobertura de suas posições, aumentando a oferta e acentuando a queda. O segundo refere-se à preocupação e várias iniciativas, mundo afora, para tentar animar as economias.

Portanto, a orientação para investidores dada pelos dois analistas é para manter a calma e seguir a estratégia de longo prazo.