O dólar vai bater 5 em março?

Por Naiara Bertão, Valor Investe — São Paulo 

A Disney fica cada vez mais longe para todo mundo. O dólar vem batendo recorde em cima de recorde e já acumula alta de 6,9% em um mês. Na sexta-feira, chegou a bater R$ 4,5128 durante o pregão, mas diminuiu os ganhos diante da intervenção do Banco Central, que saiu vendendo contratos que jogam dólares no mercado. No fim, a moeda americana se desvalorizou 0,10% em relação ao real, valendo R$ 4,4809, o maior patamar histórico em termos nominais (sem descontar a inflação). Sem isso, certamente teria ficado ainda mais alto.

Além de fatores estruturais, como a diferença de taxa de juros entre Estados Unidos e Brasil e a disparidade de crescimento econômico desses países, que já pressionam a moeda americana, os analistas explicam que a escalada recente do dólar pode ser explicada também por fatores pontuais.

Nestes estão as tensões comerciais entre Estados Unidos e China, os desentendimentos da América com o Irã e a recente eclosão da epidemia do coronavírus, sendo que o último foi o fator que mais pressionou nesta semana e colaborou para o enfraquecimento de diversas moedas de países emergentes frente ao dólar.

Quem acompanha o câmbio seja porque tem uma viagem planejada, especula no mercado de moedas ou quer entender o impacto na sua vida e nos investimentos se perguntou diversas vezes nos últimos dias: “Até onde vai o dólar? Podemos ver a divisa bater R$ 5 em março?”.

Valor Investe foi conversar com especialistas – operadores de câmbio, corretores, assessores de investimento e gestores de fundos – para responder a essa e outras perguntas. Veja:

O dólar vai bater R$ 5 em março?

Uma brincadeira comum no mercado financeiro é que quem souber prever o câmbio vai ganhar muito dinheiro. Isso porque é uma das variáveis macroeconômicas mais complexas e voláteis, portanto, difíceis de prever.

É raro quem se arrisca a cravar uma posição. Mas a maioria dos gestores de fundos multimercados e cambiais e analistas de mercado precisa ter um cheiro, pelo menos, da tendência (alta ou baixa) para não perder dinheiro.

Segundo o último boletim Focus, que compila dezenas de estimativas de diversos economistas, a aposta média para o dólar no fim de 2020 é de R$ 4,15 (na semana anterior estava em R$ 4,10). Estariam os economistas com excesso de otimismo?

gráfico dólar mercado

Como o fim do ano está ainda distante, tudo pode acontecer. Mas o fato é que muitos não duvidam que no curto prazo, a moeda americana toque sim os R$ 5.

“O dólar pode sim chegar a R$ 5 porque o cenário vem se agravando e pode se agravar mais por causa da disseminação do coronavírus no mundo”, comenta Jefferson Laatus, estrategista-chefe do Grupo Laatus e especialista em operações de câmbio.

Por ser um momento de incerteza com relação ao impacto que a doença terá nas economias mundiais, os investidores procuram moeda forte, sendo o dólar a principal delas. Por isso, a moeda não sobe apenas contra o real, mas sim, em relação a grande parte dos países emergentes. O DXY, índice composto por uma cesta de moedas, caiu 1,21% nesta semana.

Fabrizio Velloni, chefe da mesa de câmbio da Frente Corretora, destaca que o maior ponto de atenção é o quanto a doença poderá desacelerar a economia americana, já que o país está em situação de pleno emprego, com consumidores a todo vapor, mas com um risco de desabastecimento por conta da quebra da produção no mercado chinês. A intensidade disso poderá ditar se haverá algum impacto na inflação americana que justifique o banco central local (o Federal Reserve) a mexer nos juros.

Tanto Velloni quanto Laatus lembram que não é só coronavírus que pode ditar o rumo da moeda. Considerando que o clima político no Brasil não é dos melhores e ainda há reformas importantes, como a tributária e administrativa, para serem aprovadas, a situação interna também pode mexer com o câmbio, e pra cima.

Além disso, qualquer mudança na perspectiva para o coronavírus, como a diminuição do ritmo da contaminação ou testes favoráveis de uma vacina poderia diminuir a preocupação global e aliviar o câmbio.

“Vale lembrar que, do mesmo jeito que o dólar arrancou, pode também cair rapidamente, se houver uma resolução para o coronavírus. Temos que acompanhar o contágio. E a moeda também já se valorizou muito e, é comum que, depois de períodos de irracionalidade, quando investidores cometem exageros, eles voltam à racionalidade”, diz Velloni.

Qual o impacto da moeda nos meus investimentos?

Não é novidade que a moeda americana está mais presente no nosso dia a dia e não apenas quando decidimos viajar para o exterior para conhecer o Mickey e a Minnie. Ela influencia em maior ou menor grau os preços dos combustíveis, de alimentos e peças importadas, maquinários produtivos da indústria, fertilizantes e agrotóxicos da nossa agricultura e por aí vai. Os serviços também estão cada vez mais globalizados, como softwares de armazenamento de dados em nuvem e streamings de música e vídeo.

Quando pensamos em nossos investimentos, porém, é mais difícil perceber o impacto do dólar alto. Ainda que de maneira indireta, ele influencie as companhias negociadas na bolsa, seja pelo aumento de despesas com produtos e máquinas, ou pelo encarecimento de dívidas que tenham em moeda estrangeira. Na situação atual, as exportadoras de commodities sentem ainda o peso da desaceleração global nas suas receitas, enquanto aéreas mergulham com custos em alta e diminuição da demanda por causa do coronavírus.

“Para as pessoas de uma forma geral, a preocupação é que o Brasil importa muitos produtos e com isso os preços vão ficar mais caros e isso pode causar uma pressão na inflação. Mas, para o investidor que não está posicionado em nada atrelado ao dólar, provavelmente não vai surfar na onda e nem terá como compensar as perdas”, explica Rebeca Nevares, uma das sócias-fundadoras do escritório de assessoria financeira Ella’s Investimentos, ligado à XP.

Rebeca se refere a uma consequência menos visível, mas importante: quando a divisa americana sobe, ficamos – todos nós, brasileiros – mais pobres perante o mundo. O nosso salário também se desvaloriza, assim como nossos investimentos e poupança. Como driblar isso? Com a tão falada diversificação dos investimentos.

Rebeca se refere a uma consequência menos visível, mas importante: quando a divisa americana sobe, ficamos – todos nós, brasileiros – mais pobres perante o mundo. O nosso salário também se desvaloriza, assim como nossos investimentos e poupança. Como driblar isso? Com a tão falada diversificação dos investimentos.

A estratégia de dolarizar uma parte do patrimônio (ou seja, ter na carteira ações de empresas estrangeiras e outras moedas, em especial o dólar) não vale, porém, para quem quer especular e pensa apenas no curto prazo, é uma tática de longo prazo e de proteção.

“O que o investidor precisa é aproveitar este momento para tomar consciente de que as valorizações do dólar como essa trazem um empobrecimento relevante da nossa riqueza em relação ao mundo. A gente não gasta só em reais, muitos dos nossos custos seguem dólar. É relevante que eles se preparem para estes momentos com diversificação”, explica Aranha.

Vale ressaltar, porém, que a recomendação é que a dolarização do patrimônio seja apenas de uma parte do que o investidor tenha em renda variável e não que substitua totalmente essa classe de ativo na carteira.

Além dos ativos mais tradicionais, como o próprio dólar ou fundos cambiais, Rebeca sugere fundos de investimentos multimercados, de preferência os que tenham estratégias globais. Ao contrário dos fundos de ações, cujos gestores só têm mandato para comprar ações, os fundos multimercados podem apostar em câmbio, ainda que só para proteção e não especulação para ganhar dinheiro.

“Para os clientes recomendamos fundos que olham para fora do Brasil, para câmbio e buscam ativos globais, como os fundos globais ou de ações atrelados ao dólar, para mitigar o risco da moeda. Mesmo os que investem em papéis nos Estados Unidos, apesar das bolsas americanas também estarem caindo, o fato de estarem posicionados em dólar compensa na outra ponta”, explica Rebeca.

Como faço se tenho uma viagem para o exterior em breve?

A recomendação de especialistas para qualquer viagem para fora do país é sempre a mesma: planeje com antecedência a compra de moeda, divida o valor que quer levar em pequenos lotes que serão comprados aos poucos, para diluir o impacto da oscilação do câmbio.

Bom, se você está com o tic-tac do relógio acelerando, vai embarcar no próximo mês e ainda nem começou a comprar dólar, euro, libra, etc, a sugestão é ir comprando um pouquinho por dia ou semana. “A cotação da moeda pode até se manter alta, mas não vai para R$ 5 amanhã, nem semana que vem, por isso aproveite para conseguir pelo menos um preço médio ok”, diz Lattus.

Um ponto importante a ser observado é também a mudança na regra do câmbio em compras no exterior pelo cartão de crédito. A partir de 1º de março, os emissores de cartões de crédito serão obrigados a usar a taxa de câmbio do dia das compras realizadas pelo cliente no exterior para converter os valores para o real, como foi determinado pelo Banco Central.

Segundo o Valor apurou com fontes próximas aos bancos, a conversão do dólar para o real vai considerar a média da taxa de câmbio do BC — a Ptax — do dia anterior ao da compra mais o “spread” que o banco deseja cobrar, ou seja, o prêmio cobrado acima da cotação do dólar comercial para cobrir os riscos da operação.

Mas, se você tem mais um tempinho, a recomendação do Fabrizio Velloni, da Frente Corretora é esperar um pouco mais para ver se o cenário sobre o coronavírus fica mais previsível e o dólar acaba desacelerando.

O mesmo pode valer para quem está fazendo intercâmbio. É recomendado não se apavorar e comprar tudo de uma vez.

Soluções novas de câmbio

Além do tradicional cartão de débito para viagens internacionais, pré-pago, e do cartão de crédito normal, surgem outras opções no mercado brasileiro para o público que passa um tempo fora do país e investe lá fora.

Para intercambistas ou quem recebe ou paga com recorrência em outro país, o banco BS2 lançou recentemente a Conta Internacional, que funciona como uma conta corrente internacional que faz conversão instantânea de moeda (R$ e US$) entre contas do mesmo cliente e permite saques lá fora e aqui dentro. Apesar de não cobrarem pela abertura e manutenção da conta, há cobrança de tarifas por alguns serviços.

Para investidores, a corretora Avenue promete facilitar a vida de quem quer investir em ativos americanos.

Além disso, pensando em aumentar a gama de produtos internacionais e a base de clientes (brasileiros ou não) lá fora, a XP Investimentos e o BTG Pactual também estão aumentando a presença no exterior.

Agora é colocar as barbas de molho, esperando o que vai acontecer de fato com o dólar nos próximos dias e próximas semanas. Esse curto prazo vai dar alguma sinalização se o câmbio nos reserva fortes emoções para este ano. Tomando por base os primeiros dois meses de 2020, a resposta é mais pra sim do que para não. A conferir.