Opções de investimentos no exterior crescem no Brasil, até para os pequenos investidores

O nosso dia a dia está repleto de marcas estrangeiras. Principalmente na quarentena nos valemos do Zoom, Google e Microsoft para trabalharmos todos os dias. Consumimos produtos da Coca-Cola, Nestlé, Danone para nos alimentar e Gilette, Johnson & Johnson e Oral-B para nossa higiene pessoal. Mas, não conseguimos, como investidores de varejo, ter essas companhias em nossa carteira de investimentos. Por que iríamos querer comprar um papel da empresa de tecnologia Apple ou da farmacêutica Pfizer?

A resposta é velha conhecida de quem lê sobre finanças: diversificação. Neste caso, a diversificação geográfica – todas elas são companhias fora do Brasil, apesar de terem operações aqui – e também a diversificação de moedas – suas ações e seu financeiro são em outra moeda que não o real.

A forte desvalorização do real frente ao dólar escancarou uma realidade pouco discutida quando tudo está indo bem: a nossa bolsa de valores, as nossas empresas e nosso dinheiro estão valendo menos.

Em paralelo, além da crise causada pela pandemia do coronavírus que atinge o mundo todo, o Brasil passa por uma instabilidade política com desentendimentos entre os três poderes, o que fez muita gente repensar se vale o risco de apostar só aqui.

Esse contexto foi um propulsor para o mercado de investimentos no exterior e produtos dolarizados. Oferta e demanda cresceram juntas.

Demanda crescente

A gestora brasileira GEOCapital, por exemplo, especializada em fundos no exterior, viu seu patrimônio aumentar 10% este ano para aproximadamente R$ 1 bilhão. O grande interesse mesmo foi pelos fundos dolarizados – a casa também tem opções com “hedge” cambial, mecanismo que permite converter o fundo para reais e eliminar a exposição à moeda americana.

“Por falta de conhecimento ou acesso, historicamente a maioria dos brasileiros investe pouco ou nada em empresas das quais são clientes. Alocam parte do seu salário na compra de produtos, mas não se beneficiam da mesma maneira como investidores. Ajudam na rentabilidade da empresa, mas não se beneficiam diretamente dela. A boa notícia é que isto já está mudando, movimento este que foi acelerado por esta crise”, diz Daniel Martins, CEO e diretor de investimentos da GeoCapital.

Legg Mason, holding global que está em mais de 40 países, disse ao Valor Investe que durante a crise global desencadeada pela covid-19, a captação de seus fundos no Brasil atingiu R$ 21 milhões (até o final de abril), crescimento de mais 900% em relação ao mesmo período de 2019, quando a captação ficou em torno de R$ 2 milhões.

Para Roberto Teperman, head da Legg Mason no Brasil, esses dados mostram o apetite do investidor local para ativos globais uma vez que a queda da taxa básica de juros fez com que a renda fixa local perdesse bastante atratividade.

Em muito anos, é a primeira vez que vemos captação positiva de fundos em época de crise e alta volatilidade no mercado. Isso mostra uma maturidade do investidor brasileiro que está enxergando oportunidades de acessar o exterior mesmo durante a crise”, comenta Teperman.

Mesmo quem ainda não investe no mercado internacional, começa a alimentar uma certa curiosidade sobre o assunto. O bate-papo que a XP teve com Howard Marks, fundador da gestora americana Oaktree Capital Management, por exemplo, já teve mais de 60 mil visualizações no Youtube, bastante para uma gestora internacional inexpressiva no país.

Até mesmo abrir conta no exterior ficou mais fácil. As corretoras, como a novata Avenue, trabalham para facilitar que os pequenos acessem o mercado de ações lá fora. Na Avenue, empresa brasileira com sede em Miami (EUA), por exemplo, com US$ 50,31 (cerca de R$ 270) o investidor brasileiro pode aplicar em um fundo que investe em títulos do governo americano, considerados de baixo risco. O tesouro americano paga bem pouquinho (0,25% ao ano), mas o dinheiro está aplicado em dólar.

Segundo William Castro Alves, sócio e chefe de Estratégia na Avenue, a demanda por investimentos dolarizados cresceu muito nos últimos meses, acompanhando a alta do dólar. “Começamos o ano com 40 mil clientes e estamos com 80 mil agora, mas acredito que em um mês possamos bater 100 mil contas”, diz.

O impulso que leva alguém a aplicar lá fora é, segundo ele, a sensação de que está ficando mais pobre deixando o dinheiro todo no Brasil. A corretora lá fora se torna uma boa alternativa para quem procura opções ao que tem disponível no Brasil.

A Avenue está, inclusive, contratando analistas para montar um time que publicará relatórios de recomendação de papéis. O motivo é aproveitar a procura maior de brasileiros para mostrar que nem só de Facebook vive a bolsa americana.

Oferta em alta

Vendo que havia mercado e acompanhando um movimento natural de sofisticação de clientes, plataformas como XP e BTG Digital procuraram ampliar no último ano sua gama de opções, oferecendo fundos de renomadas gestoras, como as americanas Oaktree, Pimco, Man Group, Mobius e Wellington e da seguradora francesa AXAO Bradesco trouxe ao Brasil ano passado e vende com exclusividade um dos fundos da Bridgewater, maior gestora de hedge funds do mundo, fundada por Ray Dalio.